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Diálogo entre setor público e privado da saúde pode criar políticas mais uniformes

Diálogo entre setor público e privado da saúde pode criar políticas mais uniformes

Presidente da maior operadora de planos de saúde do Brasil defende diálogo com governo e mudança de modelo assistencial na área

Há 20 anos, a lei federal 9.656 regulamentou as operadoras de plano de assistência à saúde, definindo-as como pessoa jurídica constituída como sociedade civil, comercial, cooperativa ou de autogestão que opere contrato de prestação continuada a preço pré ou pós estabelecidos. Desde então, este mercado tem crescido, fechando 2018 com mais de 47 milhões de clientes. A grande maioria, cerca de 66%, é de coletivo empresarial. Em dez anos, por exemplo, o salto de pacientes em números totais foi de 14%, de acordo com a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). 

Desde que o Brasil entrou em crise o setor de saúde suplementar acabou perdendo beneficiários, aproximadamente 3 milhões, porém ainda conta com uma parcela significativa de cobertura e vive momento de recuperação. Para Orestes Pullin, presidente da Unimed Brasil, maior operadora de planos de saúde no País, esta representatividade credencia o setor privado para colaborar com o público. Em recente visita à FOLHA, o londrinense defendeu maior diálogo com o governo para ideias e parcerias, além da busca de novo modelo assistencial de saúde, com trabalho redistribuído. 

Também ponderou sobre a necessidade e formato do programa Mais Médicos e elencou medidas que poderiam ser adotadas para otimizar a saúde, em especial em estados com problemas financeiros. Pullin é formado em medicina pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), com especialização em cirurgia geral. Foi diretor da Unimed Londrina, em que ingressou em 1980. Mudou-se para Curitiba18 anos depois, onde desempenhou vários cargos na cooperativa, incluindo a presidência estadual. Foi vice-presidente nacional por quatro anos e há quase dois anos está como presidente. 

Que diagnóstico faz da saúde no Brasil atualmente? 
Hoje, 55% do financiamento do setor de saúde como um todo, do que se gasta com esta área no País, vem do setor privado e 45% do público. Quando enxerga a Constituição, ela diz que a saúde é um dever do Estado e um direito do cidadão. Ninguém imaginava que íamos chegar num ponto que mais da metade do financiamento viria do setor do privado. 
E por que vem do setor privado? Porque o governo não tem dinheiro para efetivamente cumprir com aquilo que está escrito na Constituição. Por uma série de razões, entre elas a má gestão dos recursos públicos. Quando olhamos a situação mundial a saúde cada vez está exigindo que a sociedade pague mais. Custo de implementação tecnológica, do envelhecimento da população, tratamentos mais caros, tecnologia em diagnóstico para tratar câncer. A população está buscando a "imortalidade" e a saúde trabalha nesta área. 

É possível o setor privado colaborar com o público? 
As cooperativas representam 37% do mercado de saúde suplementar. Esta representação é tão significativa que hoje não dá para imaginar solucionar a questão de saúde no Brasil sem pensar que existe o setor privado e dentro dele têm as cooperativas, que são importantes. O setor privado sempre aparece como o vilão da história, que quer pegar dinheiro da população, porém não tem nada disso. As cooperativas trabalham para tentar fazer com que o médico tenha o local para trabalhar. Se não houver diálogo entre setor público e privado não dá para ter políticas mais uniformes. Por exemplo, a infraestrutura de saúde no interior está desaparecendo. O governo não investiu e começou a diminuir. Tem cidades que não fazem mais parto e é necessário ter a ambulância para levar a pessoa até outro município. Um hospital privado, como Santa Casa, que tem contrato com o governo para receber verba do SUS (Sistema Único de Saúde) para tratar a saúde da população, não pode estabelecer vínculo com o setor privado, o que é ruim. Um beneficiário nosso, sendo atendido, queremos pagar o prestador de serviço, mas o Estado não permite que este hospital receba recursos de outro setor que não seja o público. Isso em razão do convênio. O dinheiro que a instituição poderia receber do setor privado daria para ser utilizado para melhorar a estrutura na cidade pequena. 

Quais as perspectivas para 2018 na área da saúde? 
Acho que o fato relevante nesta mudança de governo é a questão de inserir dentro da discussão de saúde o conceito de que o governo tem um tamanho e ele não consegue ir além disso. É o que estamos vendo muito bem no discurso do presidente Jair Bolsonaro, ou seja, não é pecado conversar com o setor privado. Só o fato de ter esta política já é importante para abrir espaço para conversar. 
Também me parece que as pessoas que estão entrando no governo estão tirando o viés ideológico que o trouxe até agora. Este viés não deixava evoluir conversas entre setor público e privado. Nós esperamos que com a entrada deste novo governo consigamos ter um canal de conversa bem mais produtivo, no sentido de estar criando situações que possam melhorar para todos. 

O que acha do programa Mais Médicos? 
A quantidade de médicos que tem no Brasil é muita ou pouca? Peguei indicadores de países do OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em que a média deles neste órgão são de 3,4 médicos para cada grupo de cem mil habitantes. São países de primeiro mundo. O Brasil tem 2,1 de média. Então, enxergando somente este indicador, se vê que o País tem um número menor de médicos, entretanto, quando pega esta quantidade e distribui nos estados, observa que tem o Maranhão com 0,8 e o Rio de Janeiro com 3,6. Quando criaram o Mais Médicos, não defendendo este programa, pois acho que foi feito errado, mas me colocando na posição de um prefeito do interior do Maranhão, por exemplo, ia gostar de receber um médico, seja qual for para atender esta população. Só que pelo notado, este programa tinha outros objetivos, que era repassar recursos para Cuba. Pegavam 70% dos recursos para mandar à Ilha. Se pagassem os 100% para os médicos, o dinheiro ficaria no Brasil e girava melhor a economia local. O programa Mais Médicos tem uma falha de origem, mas natureza nobre. 

Temos vários exemplos de Estados pelo País em grave crise financeira, como Rio de Janeiro e Minas Gerais. Neste contexto a saúde acaba ficando sucateada. Como resolver isso? 
A primeira questão é que se houver, de maneira clara, uma sinalização do governo de que pode haver pontos de contato, vão ser estudadas maneiras de participação da iniciativa privada de forma mais adequada junto ao SUS. Exemplo por Londrina, que tem o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), Siate (Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência), ambulância da Unimed. Porém todos estes não se conversam. Por que não criar uma central única para atender a todos? Existem parcerias que podem ser feitas e que ajudam todos os participantes dentro desta cadeia assistencial. Uma discussão mais para o futuro pode gerar outras formas de contratos que possam suprir as deficiências que o SUS tem. Como trabalhar alto custo. Têm países que tratam da saúde da atenção primária, mas quando entra na alta complexidade isto passa para a iniciativa privada. É possível imaginar isso num avanço muito grande. Porque se pensar que só o governo vai solucionar o problema não vai e só o setor privado também não. O setor privado tem um tamanho pequeno, são 47 milhões em um total de 208 milhões de brasileiros. Mas tem como se utilizar muito de estruturas do setor privado. 

O quanto a crise econômica afetou a saúde suplementar? 
O setor de saúde suplementar perdeu algo em torno de 3 milhões de clientes. Desde o final de 2017 os números vêm se mantendo em torno de 47 milhões, ao todo, mas chegamos a ter quase 51 milhões de beneficiários. Está estável, tendendo a subir. O que aconteceu é que dentro do grupo da saúde suplementar um pegou o cliente do outro. Quem tinha o preço menor levou o cliente de quem tinha o preço maior. O desemprego também prejudicou, pois 70% dos contratos das Unimeds são pessoas jurídicas e o desemprego veio em cheio contra as empresas, elas demitiram e algumas trocaram por aquilo que poderiam pagar. Ainda está longe de recuperar o que perdeu. 

Estão tendo cada vez mais consultórios populares. Eles são uma concorrência aos planos privados de assistência médica? 
O consultório popular não é plano de saúde. É um consultório onde as pessoas vão a um custo mais barato e com qualidade melhor do que ambulatórios. Dentro desta visão, não temos que nos preocupar com isso, pois é um benefício para a população. A pessoa não tem como comprar um plano de saúde, não quer ficar na fila do SUS e vai a um consultório com preço mais baixo pra ele. É um nicho que grupos acharam para fazer medicina mais econômica e com qualidade. Não é concorrente. 

É possível termos um novo modelo assistencial no Brasil? 
O País tem uma falha de modelo assistencial e não é culpa do setor privado ou do estado. É uma falha. Se olhar o que está acontecendo no mundo, o modelo assistencial é diferente. Aqui você está com dor de cabeça e procura o médico que quiser na cooperativa, por exemplo, o profissional examina, pede exames, dá o remédio e você vai. Não tem uma continuidade do serviço. Escolhe, mas não sabe se está escolhendo o caminho adequado. Precisa-se ter uma porta de entrada aonde a pessoa tem o médico dele, de sua confiança, que vai orientar, nem que seja para encaminhar direto a um pronto socorro, neurologista, ou se ele que vai dar o atendimento. Este modelo em que insere na cadeia assistencial a atenção primária de forma organizada o atendimento, com prontuário eletrônico, que tem seguimento este processo, é a mudança de modelo ideal. Estamos trabalhando desde 2011 com isso, para que se mude o modelo, tanto na saúde suplementar, quanto na saúde pública. O modelo da saúde pública, que começou desenhado desta maneira, no final virou projeto assistencialista e puramente demagógico.
 
Pedro Marconi
Reportagem Local




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