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A batalha das vacinas: quais são as 11 na Fase 3

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A maior competição da história das vacinas

A maioria das vacinas falha durante o desenvolvimento. Mas elas ainda são o produto farmacêutico mais bem estudado que inserimos em nosso corpo. Um prazo de 10 anos e US$ 1 bilhão seria razoável para uma vacina nova chegar ao mercado. No caso da Sars-CoV-2, pesquisadores, desenvolvedores e fabricantes trabalham no ‘parted-risk’, ou seja, utilizam os acordos de pré-compra para acelerar sobremaneira o desenvolvimento, o que possibilita abreviar os prazos amarrando os investimentos ao ‘stock booking’ de doses. Não é uma engenharia nova, mas foi massificada nos últimos tempos permitindo aos fabricantes terem ‘recebíveis’ em conta corrente antes das vacinas obterem aprovação clínica. O Reino Unido, por exemplo, já assinou acordos para mais de 340 milhões de doses de vacinas, significando que se todas funcionarem haverá o suficiente para cada britânico receber cinco doses (a maioria das vacinas em estudo requer duas doses). Não é diferente com o EUA e outros países. Todos estão certos em dividir riscos e glórias, como nos lembra uma vetusta expressão do empreendedorismo: “sem arriscar, Michelangelo teria pintado o piso da Capela Sistina”.

Tradicionalmente, vacinas são desenvolvidas através do próprio patógeno, que após ser inativado é inserido no corpo. Trata-se de um complexo método utilizado há quase um século e que envolve uma cesta de riscos consideráveis, tornando o projeto longo e extremamente dispendioso. A Tecnologia do DNA Recombinante, já utilizada largamente na produção de proteínas terapêuticas, está sendo aplicada no desenvolvimento das vacinas genéticas. São produtos menos complexos de desenvolver e tão seguros quanto aqueles alavancados pelos métodos tradicionais. Outro redutor do tempo de desenvolvimento está no modelo de combinação de fases, onde é possível e justificável que várias fases ocorram simultaneamente. Sem falar no imenso poderio dos instrumentos de Data Science, largamente disponíveis hoje para desenvolvedores e  agencias de certificação. Os horrores da Covid-19 vão influenciar a ciência médica e as tecnologias digitais nos próximos 40 anos.

É possível indicar que existe hoje mais de uma centena de projetos vacinais contra o coronavirus. Segundo rastreamento realizado até a última semana de outubro pelo jornal The New York Times, existem 34 vacinas da Sars-CoV-2 na Fase 1, outras 14 na Fase 2, e 11 produtos sendo testados na Fase 3. Por si só isso já seria uma conquista notável para uma doença que apareceu há dez meses.

A farmacêutica norte-americana Moderna, por exemplo, começou em janeiro a desenvolver sua vacina com apoio do governo dos EUA, que financiou os esforços com US$ 1 bilhão de apoio com garantia de fornecimento posterior. Trata-se de uma vacina genética (mRNA-1273) que libera um ou mais genes do próprio coronavírus em nossas células, provocando a resposta imunológica. É baseada em RNA mensageiro (mRNA) e desenvolvida em parceria com o National Institutes of Health. Os pesquisadores descobriram em março que a vacina protegia os macacos do coronavírus. Em 27 de julho a empresa fechou as Fases 1 e 2, e em outubro recrutou 30 mil participantes para o trial da Fase 3, incluindo 7 mil pessoas com 65 anos ou mais. Se os resultados forem positivos (e aceitos pela agência norte-americana FDA) a empresa poderá solicitar uma ‘autorização de uso emergencial’ até o final de 2020. O que é “uso emergencial” ainda não está muito claro, mas esse é um ‘jogo de credibilidade’: quanto mais ‘carimbos’ o produto receber (capacidade da empresa, status do governo envolvido, credibilidade de agência reguladora, etc.) menos problemas de descredito terá de enfrentar. 

Na mesma linha das vacinas genéticas, a empresa alemã BioNTech firmou parceria com a Pfizer e com a farmacêutica chinesa Fosun Pharma para desenvolver outra mRNA, que será administrada em duas doses. Em maio, lançaram os ensaios das Fases 1 e 2 com duas versões da vacina, descobrindo que ambas produziam anticorpos contra o SARS-CoV-2. Descobriram também que uma das versões produzia significativamente menos efeitos colaterais, como febre e fadiga. Em julho, as empresas anunciaram o início da Fase 3 com 30 mil voluntários nos EUA, Argentina, Brasil e Alemanha. Em 12 de setembro, a Pfizer e a BioNTech anunciaram que buscariam expandir os testes nos EUA para 43 mil voluntários, incluindo testar a vacina em crianças a partir dos 12 anos. Em setembro, a Pfizer explicou que o ensaio da Fase 3 forneceria resultados suficientes já em outubro, identificando ou não a positividade dos testes. Da mesma forma, o governo dos EUA fechou contrato de US$ 1,9 bilhão para 100 milhões de doses a serem entregues até dezembro (com opção de adquirir mais 500 milhões), sendo que o Japão também adquiriu 120 milhões de doses e a União Europeia outras 200 milhões. O grande desafio da Pfizer e BioNTech (e também da Moderna) é o delivery: é necessário manter as vacinas no chamado “congelamento profundo” (80 graus negativos).

O Instituto de Pesquisa Gamaleya (que faz parte do governo Russo) lançou testes clínicos em junho da chamada Gam-Covid-Vac, uma combinação de dois adenovírus (Ad5 e Ad26), ambos desenvolvidos com um gene do coronavírus. Em agosto, o presidente Putin rebatizou-a de Sputnik V. Em 4 de setembro, três semanas depois do anúncio presidencial, os pesquisadores do Gamaleya publicaram resultados das Fases 1 e 2. A Fase 3 teve início em 17 de outubro envolvendo 40 mil voluntários. A Rússia já negociou acordos de fornecimento da vacina para o Brasil, México e Índia. Em 27 de outubro, o fundo russo que coordena a produção da vacina pediu oficialmente a OMS um “registro de aprovação emergencial”.

Também na Fase 3 está a chinesa CanSino Biologics, que desenvolveu seu produto (baseado no adenovírus Ad5) em parceria com a Academy of Military Medical Sciences da China. Em 25 de junho, num movimento sem precedentes, os militares chineses “aprovaram” por um ano a vacina considerando-a como uma “droga especialmente necessária”. Em julho, relataram que os ensaios da Fase 2 tiveram forte resposta imunológica. A partir de agosto, o CanSino começou a realizar os testes da Fase 3 em vários países, incluindo a Brasil, Arábia Saudita, Paquistão e Rússia. A batalha das vacinas em curso tem os componentes típicos de um confronto belicoso: açodamento, guerra de narrativas, confronto geopolítico, desafios pirotécnicos travestidos de ciência, exageração midiática, etc. Cada dia no pageviews-top pode significar pontos no ‘pregão’ do dia seguinte.

Entre as melhores apostas da Fase 3 está a empresa anglo-sueca AstraZeneca em consórcio com a Universidade de Oxford, que desenvolveram sua vacina baseada em um adenovírus de chimpanzé (ChAdOx1). Em maio, os EUA concederam ao projeto US$ 1,2 bilhão na pré-compra de 300 milhões de doses se a vacina se mostrar eficaz. Os pesquisadores descobriram que em macacos a vacina protegia os animais da doença, sendo que nas Fases 1 e 2 eles não detectaram quaisquer efeitos colaterais graves. Os testes da Fase 3 foram iniciados na Inglaterra, Índia (onde é conhecida como Covishield), Brasil (com sustentação e apoio tecnológico da Fiocruz), África do Sul e EUA. Em agosto, a União Europeia fechou um acordo para a AstraZeneca fornecer 400 milhões de doses se os testes forem positivos (a empresa diz que sua capacidade total de fabricação será de 2 bilhões de doses). Em 6 de setembro, a AstraZeneca interrompeu os testes globais para investigar um voluntário que desenvolveu uma mielite transversa, sendo que uma semana depois os testes recomeçaram.

Outra potencial vacina na Fase 3 está sendo desenvolvida pela Johnson & Johnson, que já tem experiências bem sucedidas com o Ebola e outras doenças. Em março, receberam US$ 456 milhões do governo dos EUA para apoiar os testes e a produção. Resultados preliminares mostraram que a vacina forneceu proteção em experimentos com macacos, sendo que a empresa iniciou os testes das Fases 1 e 2 em julho, lançando a Fase 3 em setembro com 60 mil voluntários.  Ao contrário de outras vacinas, esta requer apenas uma dose. Em agosto, o governo dos EUA adquiriu 100 milhões de doses (US$ 1 bilhão) em pré-compra se a vacina ‘cruzar a linha de chegada'. A União Europeia chegou a um acordo semelhante em 8 de outubro (200 milhões de doses). Em 12 de outubro, a Johnson & Johnson anunciou que colocou seu ensaio em pausa para investigar uma reação adversa com um voluntário. O trial foi retomado onze dias depois. Apesar do atraso, a empresa espera obter resultados até o final do ano.

A chinesa Sinopharm começou a testar uma segunda vacina com vírus inativado, sendo ela desenvolvida pelo Instituto de Produtos Biológicos de Pequim. Depois de realizar os primeiros testes clínicos na China (Fases 1 e 2), eles lançaram os testes de Fase 3 nos Emirados Árabes Unidos e na Argentina. Em 14 de setembro, os Emirados Árabes deram ‘aprovação de emergência’ para uso em profissionais de saúde (antes que a Sinopharm compartilhasse dados indicando a sua eficácia). Em outubro, o presidente da Sinopharm explicou que a empresa está preparando a fabricação de suas duas vacinas, com planos de produzir um bilhão de doses por ano.

Certamente que uma das mais promissoras apostas é da empresa privada chinesa Sinovac Biotech, com a vacina inativada CoronaVac. Em junho, a empresa anunciou que os testes das Fases 1 e 2 (743 voluntários) não encontrara efeitos adversos graves e produzia uma resposta imunológica importante. Em julho, o governo chinês concedeu à vacina uma ‘aprovação de emergência’ para uso limitado. A Sinovac lançou a Fase 3 no Brasil em julho, num acordo com o Instituto Butantan, em São Paulo, seguido por outros países como Indonésia e Turquia. Em 16 de setembro, eles registraram o ensaio das Fases 1 e 2 para crianças. No mesmo mês, o CEO da Sinovac, disse que a empresa planejava a distribuição mundial no início de 2021, incluindo nos EUA. Em 19 de outubro, as autoridades brasileiras explicaram que a CoronaVac era a mais ‘segura das cinco vacinas que estavam sendo testadas na Fase 3’. Ainda em outubro, as autoridades da cidade de Jiaxing (leste da China) anunciaram que estavam aplicando a CoronaVac em trabalhadores de alto risco, incluindo profissionais de saúde, inspetores portuários e funcionários do serviço público.

Em colaboração com o Conselho Indiano de Pesquisa Médica e o Instituto Nacional de Virologia a empresa indiana Bharat Biotech desenvolveu a vacina ‘Covaxin’, com base em uma forma inativada do coronavírus (estudos em macacos e hamsters descobriram que ela fornecia proteção contra infecções). O CEO da empresa (também) revelou que ela estaria disponível no início de 2021. Em 23 de outubro, a empresa anunciou que estava iniciando o ensaio de Fase 3. Outro produto nessa fase é a vacina BCG (Bacillus Calmette-Guerin), desenvolvida no início de 1900 como proteção a tuberculose. O Murdoch Children's Research Institute, na Austrália, está conduzindo em conjunto com a Fiocruz um ensaio de Fase 3 (denominado Brace) objetivando verificar se a vacina protege parcialmente contra o coronavírus. A BCG é umas das principais vacinas utilizadas no mundo, sendo aplicada anualmente em cerca de 120 milhões de recém-nascidos. O Brace Trial pretende avaliar se a vacinação ou revacinação com BCG pode reduzir o impacto da Covid-19 nos profissionais de saúde.

A Novavax, sediada em Maryland (EUA), lançou testes de sua vacina em maio, com investimentos de US$ 384 milhões da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations. Em julho, o governo dos EUA concedeu US$ 1,6 bilhão para apoiar os ensaios clínicos e a sua fabricação. Depois de obter resultados promissores em estudos preliminares (com macacos e humanos), a Novavax lançou a Fase 2 em agosto (na África do Sul). No mês seguinte, a empresa iniciou a Fase 3, inscrevendo 10 mil voluntários no Reino Unido. Segundo a empresa, os encaminhamentos podem gerar resultados no início de 2021. A Fase 3 também foi lançada nos EUA em outubro. Se os testes forem bem-sucedidos, a Novavax espera entregar 100 milhões de doses para uso nos EUA até o primeiro trimestre de 2021. Em setembro, a empresa chegou a um acordo com o Serum Institute of India (grande fabricante de vacinas), que lhe permitirá produzir até 2 bilhões de doses ao ano.

Todas as informações sobre as 11 vacinas aqui apresentadas são datadas: os cronogramas e os fatos mudam diariamente. Assim, quando teremos a imunização vacinal da Covid-19 ainda é uma aposta. O que está claro é que deveremos ter algumas opções nos próximos 12 meses, e ‘nenhuma opção sobre se devemos ou não vacinar’. Em sua maioria absoluta os danos causados por qualquer vacina são mínimos, sendo que os casos graves são raros e são muito compensados ​​pelos ganhos para a saúde individual e coletiva. Com relação a quem serão aqueles que levarão a gloria nobelistica da primeira vacina pandêmica, talvez seja interessante lembrar a resposta do epidemiologista e descobridor da primeira vacina antipólio, Jonas Salk (1914-1995), quando perguntado por um jornalista de quem era a patente da vacina contra a poliomielite: “É das pessoas. Não há nenhuma patente. Você poderia patentear o sol?”

 

Guilherme S. Hummel

Coordenador Científico - HIMSS@Hospitalar Forum

eHealth Mentor Institute (EMI) - Head Mentor

 

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