Hospitalar faz parte da divisão Informa Markets da Informa PLC

Este site é operado por uma empresa ou empresas de propriedade da Informa PLC e todos os direitos autorais residem com eles. A sede da Informa PLC é 5 Howick Place, Londres SW1P 1WG. Registrado na Inglaterra e no País de Gales. Número 8860726.

Pop-up Hospital: erguendo 500 leitos de UTI em 9 dias!

Como os hospitais de campanha podem fazer a diferença no caos pandêmico

O Reino Unido foi o último país Europeu a aumentar as restrições pandêmicas, decretando o isolamento social somente em 23 de março. O resultado de sair atrasado é contar mais depressa os cadáveres e precisar inserir muito mais velocidade às medidas de contenção viral. Quem estivesse em fevereiro no ExCeL London, um dos maiores centros de convenções do Reino Unido (400 eventos por ano), não poderia imaginar que na primeira semana de abril, margeando o Tamisa, encontraria um imponente ‘hospital de campo’ com 500 leitos, o NHS Nightingale. Tampouco acreditaria se soubesse que na mesma área serão levantados mais 3500 leitos, erigindo uma imensa unidade hospitalar “improvisada” para ajudar a impedir a propagação da Covid-19. O chamado pop-up hospital, também conhecido como ‘hospital de campanha’, ou ‘emergency hospital’, ou ainda ‘field hospital’, sempre existiu desde que o ser humano se apaixonou pelas guerras. Em quase todos os países a engenharia dos pop-ups sempre esteve sob domínio das forças armadas, que são capazes de implementá-los de forma rápida e rigorosamente flexível. Em nove dias, os 87.328 m2 das salas de exposições do ExCeL London foram equipadas com uma estrutura para mais de 80 enfermarias com 42 leitos cada uma. Os 500 leitos já estão totalmente equipados com oxigênio, ventiladores, digital devices, etc. Quando atingir plena capacidade o NHS Nightingale será um dos maiores hospitais do planeta. 

As estimativas mais baixas projetam que até o final do ano mais de 700 unidades pop-up estarão funcionando ao redor do mundo, com capacidade para abrigar de 20 até 1000 leitos. Erguidos em ginásios esportivos, arenas de futebol, espaços de trade shows e até em estacionamentos, o pop-up hospital entrou na vida das nações mesmo sem haver uma guerra por fronteiras. Em Wuhan, na China, um hospital de 1000 leitos foi erguido em semanas, enquanto em Madri, também num Centro de Convenções, outro gigantesco espaço hospitalar foi instalado (confira no vídeo-post). Embora o coronavirus esteja na mente de todos os responsáveis por essas obras, existem motivações adicionais: a velocidade de implantação, a modularização da obra e o seu custo. Segundo a American Institute of Architects (AIA), o custo por leito/CTI de um pop-up hospital está aproximadamente entre US$ 125.000 e US$ 150.000, sendo que no caso de pacientes infectados pela Covid-19 (carentes de atenção intensiva) o custo pode superar os US$ 150 mil, levando poucas semanas para ser erigido. Não se compara ao custo de um novo hospital, que não exige menos do que US$ 2 milhões por leito (base de cálculo: unidade com 100 leitos) e não leva menos de 18 meses para ser erguido. 

A instalação do NHS Nightingale foi construída com ajuda diária de 200 soldados do Royal Anglian Regiment, de equipes contratadas pelo NHS (mais de 170 profissionais) e pelos arquitetos e engenheiros da BDP, empresa que ajudou a converter o Centro de Convenções. A estrutura dos compartimentos individuais de leitos é feita de material utilizado para erguer os stands de exposição (leves e podendo ser levantados rapidamente). Os turnos de trabalho foram longos, com mais de 15 horas de jornada operacional. Em sua plena capacidade, o hospital contará com 16 mil funcionários e profissionais de saúde. Não objetiva ser uma unidade hospitalar convencional, sendo que apenas pacientes londrinos que já precisam de ventiladores e carecem de terapia intensiva serão admitidos.

Os pop-up hospitals não necessariamente estão centrados em leitos de CTI, sendo, em geral, usados para acomodar pacientes que precisam ser internados, mas não entubados. Nas epidemias, servem como “antessala” para aliviar os hospitais referenciados e para obter um nível de isolamento razoável. Centros de Convenções em todo o mundo, como o ExCel, o Javits Center (Nova York) e o McCormick Place (Chicago) estão sendo convertidos em hospitais temporários em tempos de coronavírus. Suas instalações com amplos espaços abertos de piso plano, com infraestrutura flexível de MEP (mechanical, electrical and plumbing), com localização assistida por inúmeros meios de transporte de massa e a proximidade com aeroportos (e até portos), que mantem a facilidade do abastecimento, são fundamentais para a conversão pop-up. No NHS Nightingale os fluxos clínicos determinam a estratégia de circulação dentro do edifício. As gigantescas enfermarias estão ligadas por um túnel que permite a conexão com as áreas de diagnóstico. Os funcionários se deslocam por “avenidas” até as enfermarias da UTI, passando por ‘EPI rooms’ que permitem a vestimenta e reduzem os riscos de infecção hospitalar. 

Movidos pelo abalo pandêmico de 2020, muitos arquitetos, engenheiros e profissionais médicos se movimentam para prover novos modelos de field hospitals. A empresa de arquitetura Studio Prototype, por exemplo, sediada em Amsterdã, projetou o Vital House, uma unidade de saúde no modelo pop-up, construída a partir de elementos pré-fabricados e sustentáveis. Mirando o futuro, a empresa explora a possibilidade de que hospitais temporários de rápida montagem ganhem cada vez mais adesão dos Sistemas de Saúde. O Vital House é um hospital pop-up dedicado ao tratamento de doenças contagiosas, voltado a demanda de unidades de terapia intensiva (UTIs), podendo ser construído preventivamente, embalado em armazéns e disponibilizado diante da necessidade de agregar leitos rapidamente. O material principal dessas instalações é a madeira, com elementos pré-fabricados, de fácil montagem, com estruturas tubulares para redes de telefonia, gás, energia e dados. Outros modelos incorporam o container como estrutura central, ou mesmo as “tendas pressurizadas”. No Brasil, os pop-up hospitals estão sendo erguidos em vários Estados, utilizando diferentes espaços públicos, como o Estádio do Pacaembu, em São Paulo, e o Centro de Convenções RioCentro, no Rio de Janeiro.

O neologismo ‘pop-up’ não tem nada a ver com ‘estouro’, que é a tradução literal de ‘pop’. Significa sim ‘aparecer instantaneamente’, de forma surpreendente, não esperada. Foi encampado pelo jargão da Internet para explicar uma janela que se abre no navegador de uma página web. A Covid-19 também é pop-up: surgiu do nada, emergiu no Oriente, engoliu o Ocidente, conflagrou os Sistemas de Saúde em poucas semanas, já matou mais de 50 mil indivíduos, infectando em dois meses o seu primeiro milhão. A guerra viral está apenas começando e os pop-up hospitals entraram no front com imensa efetividade e não menos velozes. Em 2020 somos uma legião de zumbis lavando as mãos a cada hora, usando máscaras aflitivas, assistindo a contagem mortuária na TV, sempre desesperados por ouvir a notícia de que a Pesquisa Científica também pode ser pop-up e ávidos por abraçar e beijar os sobreviventes. Simples assim: só desejamos agora ser surpreendidos, inesperadamente, pela inteligência humana curativa. 

 

Guilherme S. Hummel
Coordenador Científico - HIMSS@Hospitalar Forum 
EMI - Head Mentor

 

Ocultar comentários
account-default-image

Comments

  • Allowed HTML tags: <em> <strong> <blockquote> <br> <p>

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Web page addresses and e-mail addresses turn into links automatically.
  • Lines and paragraphs break automatically.
Publicar