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Sanitation Economy – saneamento básico e digital

Um mercado gigantesco aos pés do Brasil

Segundo a OMS, mais de 2 bilhões de pessoas ainda não têm instalações sanitárias básicas, sendo que 1 bilhão defeca a céu aberto. No Brasil, 35 milhões de habitantes não têm acesso a água tratada, 50% não possui serviços de coleta de esgoto, sendo que apenas 45% desse esgoto é tratado. Perto de 35% dos municípios brasileiros ainda registram epidemias ou endemias relacionadas à falta ou à deficiência de saneamento básico. O problema é longitudinal, afetando sanitariamente bilhões de pessoas ao redor do mundo. Segundo revelou em 2018 o MIT (Massachusetts Institute of Technology), cerca de 4 mil bactérias diferentes e 58 mil vírus podem ser visualizados no período de 24 horas em uma única amostragem de esgoto. Essa imensa corrente epidêmica, bem exemplificada na busca por água potável para lavagem das mãos na Covid-19, fica imersa nas desigualdades globais e na negligência atávica dos países emergentes. Até aí nada de novo. O que poucos sabem, porém, é que esse ‘submundo sanitário’ é uma das maiores oportunidades de negócio do Século XXI. A chamada Sanitation Economy é um colossal mercado que opera ‘um dos reservatórios de recursos mais inexplorados do planeta’, podendo gerar desenvolvimento econômico, direitos humanos e redução de riscos epidêmicos para bilhões de indivíduos. O mundo produz 3,8 trilhões de litros de efluentes humanos a cada ano (média de 500 litros por pessoa/ano), com grande parte desses rejeitos sendo potencialmente valiosos e desperdiçados, podendo se transformar em fertilizantes, biogás, eletricidade, água, materiais ricos em proteínas e produtos farmacêuticos. Não à toa, ainda que tardiamente, o Senado brasileiro aprovou em 24 de junho último o novo marco legal do saneamento básico (PL 4.162/2019), facilitando a privatização das estatais do setor e objetivando ‘universalizar os serviços de água e esgoto até 2033’. 

O relatório “Scaling Up the Sanitation Economy 2020-2025”, publicado em 2019 pela Toilet Board Coalition (TBC), uma rede de parcerias que objetiva acelerar os fluxos de saneamento básico ao redor do mundo, estima que só na India, em 2021, a Economia do Saneamento seja um mercado de US$ 62 bilhões. Empresas estão cada vez mais engajadas nos sistemas de saneamento, levando suas organizações a enfrentar riscos, trazer dividendos e produzir transformações a milhares de cidades. Essa Economia tem como preceito-nuclear a utilização de grandes quantidades de tecnologia para ressignificar o contexto de escala. Resumidamente: escala não significa só a massa de usuários-alvo que um projeto de saneamento propõe, mas, principalmente, o envolvimento escalar de serviços compartilhados que otimizem operações, manutenção e o aprendizado na solução dos problemas. No Século XXI, Sanitation Economy tem como mote alcançar (e ultrapassar) o crescimento disruptivo e vertiginoso das cidades (até 2030, perto de 5 bilhões de pessoas habitarão em centros urbanos, ou 60% da população mundial). Esse salto quantitativo envolve novos modelos de negócios e novas plataformas que precisam crescer exponencialmente (de forma escalar) em curto espaço de tempo.

O cruzamento das demandas básico-sanitárias com as cadeias tecnológicas deverá refundar o conceito de urbanidade-compartilhada. Vejamos um paradoxo: se o acesso a saneamento básico rasteja nas regiões menos assistidas do mundo, o mesmo não ocorre com o acesso a conectividade. Segundo dados de 2019 da GSMA, já temos 5,1 bilhões de indivíduos no planeta usando algum aparelho celular, representando 67% da população mundial. Essa dissonância consumo-demográfica agride o bom senso e denigre as lideranças políticas de cada um dos países com alto grau de habitantes sanitationless. Um quarto do mundo talvez já navegue pela internet em seus smartphones, mas não possui soluções seguras de acesso a um simples banheiro. Vale lembrar que uma latrina e o gerenciamento eficaz de lodo fecal são direitos humanos, especificados nas metas ODS - Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (no. 6). Segundo o Joint Monitoring Programme (WHO/UNICEF), embora o acesso ao saneamento básico tenha aumentado de 56% em 2000 para 74% em 2017, apenas 40 dos 152 países caminham para alcançar as metas universais propostas para 2030.  

O pior talvez seja constatar que estamos expostos (todos) ao fenômeno do poor urban sanitation”, ou seja, um saneamento básico ruim, ultrapassado, feito às pressas, sem planejamento, sem protocolos mínimos, sem gestão tecnológica e sem compliance. Saneamento não é só enterrar canos, desviar efluentes e decantar esgoto em centrais de reciclagem. Trata-se de um gigantesco esforço logístico-estruturante que precisa convergir em valor real para os habitantes, que, em geral, utilizam equipamentos sanitários altamente ultrapassados ou incondizentes. O mesmo se dá com o fornecimento de água: como as instalações são subterrâneas (‘escondidas’) há baixo controle em vigilância-sanitária, causando impactos negativos, como contaminação, degradação ambiental, doenças endêmicas e vários outros abalos nas condições sociais. Sem falar nas perdas originárias da distribuição, que, segundo o Instituto Trata Brasil, estão em 38,45%, ou seja, para cada 100 litros de água captada, tratada e potável, 38 litros não chegam para ninguém, equivalendo a 7 mil piscinas olímpicas de água perdida todos os dias. 

Por outro lado, cresce a chamada Digital Sanitation, com inúmeras soluções digitais que minimizam o descontrole, fazendo com que a Economia do Saneamento seja minimamente efetiva. Ferramentas com rastreamento por georreferencia, por exemplo, já controlam a cadeia de saneamento urbano de várias megacidades. O projeto Svadha, por exemplo, é uma plataforma de saneamento digital funcionando em Odisha, na Índia. Trata-se de um mecanismo de e-business que alcança toda a fragmentada cadeia de fabricantes, provedores e empreendedores que comercializam insumos para saneamento básico (vasos sanitários, tubos, filtros, acessórios de banheiro, etc.). O aplicativo móvel SaniMark (gratuito) oferece ofertas de produtos de qualidade a preços reduzidos para pequenos comerciantes, que os revendem na ‘última milha'. Ou seja, não existe uma ‘lei de licitações públicas’, como no Brasil, mas um portal controlado por agencias do governo que busca as melhores opções para os mais de 500 microfornecedores da região rural de Odisha (demanda para investimentos em Sanitation Economy na Índia: diariamente mais de 500 milhões de pessoas defecam a céu aberto no país). Outro exemplo está em Kampala, capital de Uganda, onde 92% dos residentes dependem de ‘saneamento com coleta diária de esgoto’. Um sistema de rastreamento digital da KCCA (Kampala Capital City Authority) mapeia a localização das instalações sanitárias comunitárias (como banheiros escolares) enquanto rastreia e coordena as atividades regulares de esvaziamento das fossas por prestadores privados de serviço. Toda a operação é realizada por aplicativos de simples operação, conectados a uma central de controle. 

Na China, a empresa Coollu Network Technology oferece mais: um package de software e hardware para que os provedores de coleta de lixo (milhares) possam realizar seus serviços com muito mais eficiência. A empresa utiliza Internet das Coisas (IoT), Analytics e Inteligência Artificial para melhorar a taxa de utilização dos equipamentos. Um chip é anexado às latas de lixo para mostrar as suas localizações e o quanto estão cheias. Uma pulseira "inteligente" monitora os trabalhadores, e um dispositivo eletrônico de manutenção (com algoritmo de prevenção de falhas) está acoplado aos equipamentos. A empresa coleta os dados, analisa os resultados em tempo real e permite que os provedores de coleta tenham ganhos operacionais de 25%. Ou seja, a Economia de Saneamento cresce em profusão, e as ferramentas de Digital Sanitation crescem em sintonia com essa diligência. Exemplos não faltam: o projeto de saneamento Underworlds, do MIT, coloca sensores digitais nos canos de esgoto para mapeamento bactericida em todo o distrito de Seul. Microcontroladores já são capazes de aferir o fluxo de águas residuais (sistemas Luigi I e II), extraindo amostras que automaticamente alertam sistemas de filtragem. O Yoshi, outro exemplo, é um dispositivo eletrônico dentro do bueiro que torna altamente precisa as amostragens de esgoto, que detectam a presença de bactérias. Em Sanitation Economy o que ‘entra no vaso sanitário acaba se tornando um produto acabado, como fertilizante ou gás’. Empresas como Unilever, Kimberly-Clark, Lixil, ou inúmeras startups multiplicam programas, experiências e payback, acelerando a digitalização de projetos pelo mundo, como aqueles que envolvem novos modelos de banheiros, tubulações, micro sensores, biodigestores residenciais, etc. A Economia de Saneamento tem o potencial de transformar anualmente bilhões de litros coletados a partir de banheiros e sistemas de saneamento (o Banco Mundial estima serem necessários US$ 1 trilhão para se alcançar as metas da WHO para 2030). Acompanha mais no vídeo.

A demanda por saneamento básico é a prova de recessão e não é propensa a volatilidade ou booms. Sua monetização é estável, seu mercado é gigantesco e as possibilidades de investimentos crescentes já são uma realidade. O Brasil precisa se engajar na Sanitation Economy, abrindo espaços para alianças globais e deixando de ser uma nação com muita euforia em modernidade e pouca atenção às infraestruturas sanitárias. O Congresso deu um passo, o Executivo deu outro, só resta esperar que nossa secular atrofia a investimentos sanitários não leve o Marco Legal para o rol das ‘promessas de campanha’. 

 

Guilherme S. Hummel
Coordenador Científico - HIMSS@Hospitalar Forum 
EMI - Head Mentor

 

 

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