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Ar Condicionado pós-Covid: pessoal, vestível e com sinais vitais

A revolução dos Personal Coolers

“CoolerLivesMatter!” - O ar condicionado precisa ser respeitado, ouvido e levado a sério! Palavras de ordem como essa poderiam emergir dentro das adversidades pandêmicas e se juntar a outras agruras que o mundo nos reserva, como o ‘aumento da temperatura do planeta’. Sim, esse outro problema está longe de ser resolvido, e cada vez mais perto de nos afetar. O aquecimento global tem data e hora para ser nossa próxima “pandemia”. O estudo publicado em agosto/2020 pelo National Bureau of Economic Research é ‘neurálgico’, mostrando que o “aumento da temperatura global chegará perto de eclipsar o número atual de mortes por todas as doenças infecciosas combinadas”. São dramáticas conclusões que nos defrontam diariamente com a ‘supervivencia’ do ser humano. O fato é que os condicionadores de ar voltaram a ser o centro das atenções científicas. Na primeira semana de julho um certo “calafrio” midiático se apoderou dos air-cooling-dependents, quando o CDC (EUA) divulgou uma nova pesquisa levantando a possibilidade do SARS-CoV-2 ser espalhado pelo ar em ambientes fechados. A pesquisa realizada em Guangzhou (China), concluía que “a transmissão de gotículas poderia ser efetivada pela ventilação do ar condicionado”. No fim de julho, mais do que rápido, a OMS publicou uma página em seu website (“Ventilation and air conditioning and Covid-19”) explicando quando o ventilador e o ar-condicionado serviriam de apoio a propagação viral pessoa a pessoa. "O ar soprado de uma pessoa infectada diretamente para outra por meio do ventilador, em espaços fechados, pode aumentar a transmissão do vírus", explicou a agência, adicionando pouco sobre os condicionadores de ar. Mas em entrevista à TV espanhola, a codiretora do Centro Nacional de Biotecnología (Espanha), Dra. Isabel Sola, foi contundente: “Em um espaço fechado, se não houver ventilação natural e o condicionador limitar o ar a ser somente recirculado, o vírus também irá recircular". Não menos evidência veio de outro trabalho realizado por pesquisadores da University of Hong Kong, que usou manequins e um gás específico que permitia ser rastreado. A conclusão foi que “as partículas de um paciente contaminado poderiam se espalhar para outros a partir do fluxo do ar condicionado”. É certo que para cada estudo pró contaminação viral, existe outro reduzindo essa possibilidade. A civilização pandêmica está aprendendo a conviver com a “ciência baseada em papers”, onde publicar é quase mais importante do que pesquisar.

Do qualquer modo, o ar condicionado, a nobre invenção de Willis Carrier (1902), um jovem engenheiro da Universidade de Cornell que conseguiu produzir uma máquina termodinâmica capaz de resfriar o ar ambiente, já faz parte da vida de um ‘quinhão’ de seres humanos. O arsenal HVAC (heating, ventilation, and air conditioning) produziu não só comodidade como também alto valor sanitário, sendo cada dia mais indispensável a nossa sobrevivência. Em quase todos os estudos sobre a propagação viral em ambientes com condicionadores de ar existem pelo menos duas certezas: os HVACs devem ter (1) rígidos controles de filtragem (purificadores de ar) e (2) atenção máxima a recirculação do ar. "Os Estados que em junho já usavam muito ar-condicionado por causa das altas temperaturas também são os locais onde houve um aumento maior na disseminação da Covid-19. A mesma coisa acontece no inverno, com mais tempo dos indivíduos dentro das casas”, explicou o Dr. Edward Nardell, da Harvard Medical School, em artigo publicado na The Harvard Gazette em junho último. Muitos logradouros públicos e privados publicitam “as boas condições higiênicas do local”, mas poucos se referem a filtragem, as taxas de circulação do ar e a troca-reciclagem dele no ambiente externo. Um dos motivos é fácil de entender: nos últimos anos os coolers se concentraram mais em economizar energia, minimizando a quantidade de ar trocado nos ambientes abertos (‘ar livre’), que consome mais energia. Outro estudo, publicado na PMC em julho último, deixou claro que caso haja confirmação do “short-range aerossol”, ou seja, os aerossóis virais (nanogotículas que se dispersam no ar), ter um sistema de ‘ventilação forçada’ conveniente e antiviral é “tão importante quanto distanciamento social, máscaras e lavagem das mãos”.

Essas premissas, ainda pouco aceitas como definitivas pelo senso comum, influenciaram a sofisticação tecnológica dos ‘personal coolers’: condicionadores de ar pessoais, portáteis, vestíveis e alguns deles com capacidade para aferir sinais vitais do corpo humano. Os modelos se multiplicam. O Blaux Wearable AC, por exemplo, já foi pensando para tempos covidianos. Trata-se de um vestível de pescoço (colar avantajado), com filtro bactericida (de baixa capacidade), concentrado em resfriar o ‘ambiente individual’. O resfriamento é realizado através de uma "placa termoelétrica" contando com um ionizador para minimizar alérgenos e outros poluentes. Nunca é demais ressaltar que há pouca informação sobre a ‘Blaux company’, aparecendo nas redes e mídias publicitárias tão somente como um stream comercial, o que levanta suspeitas de ser mais uma empresa-fantasia com investidores por detrás. A conferir.

Já a multinacional japonesa Sony acelerou a promoção de seu Reon Pocket, um wearable que reduz a sensação de calor ao entrar em contato com a pele. Fixado em uma camiseta, trata-se de um dispositivo-plástico (tamanho da palma da mão), fino, que se conecta ao smartphone por Bluetooth e funciona através do efeito Peltier. O produto promete resfriar a temperatura corporal em até 13ºC, propondo que nos dias mais quentes o corpo se mantenha em média a 23ºC. Além de resfriar, o device também pode aquecer, aumentando a temperatura corporal em até 8ºC. Entre os vários lançamentos, talvez a joia da coroa seja o Cómodo Gear, conhecido como “Comfortable Gear”, fornecido pela também japonesa Fujitsu. Trata-se de um ar condicionado portátil, lançado em maio deste ano, cujo objetivo é resfriar o sangue. Também “se engancha ao pescoço” (170 gramas) e possui um módulo térmico que resfria o sangue que passa pela artéria carótida. A água circula pelo pescoço e é transferida a uma unidade que está presa na cintura (pouco maior do que um celular), que contém um mix de refrigerador-ventilador (todo o conjunto pesando ao redor de 840 gramas). É alimentado por uma bateria de íon de lítio, podendo funcionar por três hora. Apresentado inicialmente como um dispositivo para ‘trabalhadores expostos a temperaturas mais elevadas’ (encarregados da segurança, operários do setor fabril, profissionais que atuam em alta exposição solar, etc.), logo se tornou um meme-comercial, capaz de abastecer as redes sociais de forma hiperbólica. Mais do que resfriar o corpo, ele também pode aferir sinais vitais através de sensores, que, segundo a Fujitsu: “combinam informações biológicas com condições ambientais, analisando o estado de saúde do usuário em tempo real". Se uma anormalidade for detectada no monitoramento, um alerta é emitido à uma empresa de acompanhamento, podendo esta ajustar os parâmetros remotamente para reduzir o problema. Outras soluções de wearable-personal-coolers estão a caminho, principalmente aquelas que vão oferecer tecidos especiais, como anunciou recentemente pesquisadores da Universidade Donghua, China. Trata-se de um novo material condutor de calor que esfria o usuário sem a necessidade de eletricidade. O tecido transfere o calor e permite que a umidade evapore da pele. A conferir.

A tecnologia de refrigeração permaneceu praticamente inalterada por mais de um século e ainda está centrada em ambiente fechados. Esfriar o corpo de uma pessoa é muito mais eficiente do que resfriar uma sala ou um prédio inteiro, principalmente se formos cada vez mais induzidos a reduzir o contágio viral. Os dispositivos termoelétricos, ou os stretchables (circuitos eletrônicos flexíveis), ou mesmo os textile-devices tendem a reduzir gradativamente o volume de refrigeração individual, fazendo com que os wearables térmicos passem a fazer parte de nosso cotidiano (os produtos da Blaux, Sony e Fujitsu aqui citados já são oferecidos de forma comercial). Os obstáculos científicos, tecnológicos e comerciais (‘o que fazer com milhões de instalações-cooler-prediais em funcionamento?’) são intrincados, mas a Covid-19 e seu poder de ‘ameaçar ambientes fechados’ está acelerando o desenvolvimento. Nosso “desprestigiado” condicionador de ar, que carrega hoje a suspeição-viral de milhões de usuários, poderá voltar a ser reverenciado no modelo pessoal, com design, etiqueta fashion, cor da moda, perfume e até (quem sabe!) gerenciando automaticamente as ondas de calor do climatério. A conferir.

 

Guilherme S. Hummel

Coordenador Científico - HIMSS@Hospitalar Forum

EMI - Head Mentor

 

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