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Covid-19 Satellite Care – a Era Espacial volta ao front

Portable Vital-Signs Monitor – Telemedicina por Satellite

A Era Espacial foi um marco no imaginário da civilização do século passado. Todos embarcaram na fantasia de chegar a outros planetas. Em 1957, os soviéticos lançaram o primeiro satélite artificial (Sputnik1) e um ano depois os EUA fizeram o mesmo com o Explorer1. Passadas muitas viagens acumulando sucessos, fracassos e grandes avanços científicos, o arrefecimento veio com a cápsula CST-100 Starliner, um voo não tripulado que 30 minutos depois do lançamento falhou e foi abortado antes de chegar ao alvo. O gosto do fracasso foi inevitável, com o imaginário popular tendo a amarga sensação de que a Era Espacial ficava cada vez mais distante. 

 Se nas últimas décadas não ficamos pulando entre planetas com viagens científicas ou turísticas, também é verdade que o espaço sideral se alinhou a Terra em objetivos bem mais utilitaristas. Em junho de 2017, a Soyus MS-03 trouxe o astronauta francês Thomas Pesquet de volta à Terra, concluindo sua odisseia de 196 dias no espaço. Quando Thomas botou os pés no Cazaquistão, uma equipe médica ocupou seu corpo com múltiplos sensores conectados ao Tempus Pro, um device capaz de identificar dezenas de sinais vitais em tempo real. Ao contrário dos emergence devices que por anos apoiaram a telemedicina, este era móvel, portátil, pesava poucos menos de 3 quilos, resistente (capazes de suportar quedas de 2 metros), com sua conectividade totalmente baseada em satélite. Se os avanços espaciais passaram a ser desinteressantes ao grande público, o caso de Pesquet deu início a uma nova jornada de transformações na Telemedicina Aplicada, fazendo emergir centenas de aplicações que boa parte do público já utiliza mas não tem ideia que sua origem se deu nos anos 60 do século XX. Dentre tantos avanços, está o Portable Vital-Signs Monitor, como o Tempus Pro (da britânica RDT - Remote Diagnostic Technologies, do grupo Philips), uma plataforma de assistência médica satellite-driven. Se já eram utilizadas por alguns poucos, agora cresceram em aplicação graças as mazelas da Covid-19, que em muitos casos exige dispositivos de assistência remota para locais em que os cabos da internet convencional simplesmente não existem.  

Um portable vital-signs monitor afere por meio de conexão via satélite incontáveis variáveis de nosso corpo, como nível de oxigênio sanguíneo, pressão arterial e atividade cardíaca, coletando também imagens de ultrassom, sinais de ECG, dados de laringoscópio, impulsos de um desfibrilador ou cardioversor, além de permitir a realização de uma Teleconsulta em tempo real entre socorristas e os médicos localizados a quilômetros de distância. Certamente que esse e vários outros modelos similares de dispositivos compactos já são utilizados por companhias aéreas, marítimas e por organizações militares ao redor do mundo. Mas sua ‘première funcional em escala’ está ocorrendo no catastrófico universo do coronavirus. 

No quadro pandêmico devastador da Espanha, com 218 mil infectados e mais de 25 mil óbitos, os dispositivos móveis de telemedicina da ESA (European Space Agency) passaram a ser usados em campo de forma intensa. Equipes de emergência empregam esses dispositivos para triar e tratar pacientes infectados na Catalunha, onde socorristas de emergência da SEM (Sistema d’Emergències Mèdiques) utilizam ultrassonografia, laringoscopia, eletrocardiograma, entre outros recursos, por meio dos portable vital-signs monitors. Implantados em ambulâncias que comportam somente uma enfermeira e um paramédico, essas máquinas de aferição estão ligadas por satélite aos médicos especialistas, localizados nas Centrais de Atendimento da SEM. Ou seja, não há um médico dentro das ambulâncias, mas há vários atendendo cada uma delas remotamente. Como explica a enfermeira de cuidados intensivos da SEM, Borja Violant Gomez: "Nas emergências, os pequenos detalhes podem fazer toda diferença. Realizar uma intubação traqueal em uma sala cirúrgica é muito diferente de realizá-la em um carro batido com uma vítima presa, ou em um idoso de 80 anos inconsciente nas escadas de sua residência. Qualquer simplificação e redução no peso e tamanho dos equipamentos médicos passa a ser essencial no atendimento em ambientes hostis”. Além do difícil acesso ao sinistro, o tempo de resposta passou a ser imprescindível no paciente-covid-19.  A empresa espanhola de telecomunicações Eurona, por exemplo, registrou em março um aumento médio de 60% no uso da internet via satélite nos vilarejos sem acesso confiável à internet convencional (denominados de España Vacía). O acesso sideral passou a ter impacto direto em comunidades como Navarra, Galiza, Múrcia ou Cantábria, especialmente afetadas pela desconectividade que impede mais de 3,5 milhões de espanhóis (cerca de 7% da população) de acessar uma conexão de qualidade.

 O satélite de banda larga, ao invés de cabos terrestres DSL, conexões dial-up ou outras infras, utiliza a conexão espaço-sideral que pode chegar a velocidades de até 25 MBps. Na realidade, a telemedicina tem sido usada pela indústria espacial em muitos casos ao longo dos anos. Em 1996, por exemplo, a ESA forneceu um sistema via satélite para conectar médicos italianos a um hospital de campo em Sarajevo, na Bósnia, permitindo teleconsultas para pacientes civis e militares. Em 2001, o Governo da Índia estabeleceu uma rede dedicada de telemedicina por satélite para todo o país, oferecendo serviços de cardiologia, mamografia, oftalmologia e radiologia usando suas naves espaciais (GSAT-3, GSAT-12 e INSAT-3C), sendo a rede de fundamental importância no tsunami que devastou o país em 2004. Nos EUA, o modelo foi implantado em 2013 com a Hughes Network Systems fornecendo banda larga pelo satélite Spaceway3, gerando Telehealth aos trabalhadores das comunidades rurais dos estados de Maine, New Hampshire e Vermont. 

A natureza contagiosa da Covid-19 multiplicou as aplicações médicas via satélite, permitindo, por exemplo, a realização de diagnóstico de pacientes em quarentena, reduzindo o contato pessoal com os profissionais de saúde. A conexão por satélite está atualmente presente em mais de 4,5 mil cidades brasileiras, conectadas através de estações terrestres fixas que acessam satélites em órbita não geoestacionária. O Starlink, por exemplo, um dos satélites utilizados no país, consegue desempenho com latência abaixo de 20 milissegundos (enquanto você leu essa linha, alguém já se conectou). No Brasil, a Rede Nacional de Pesquisas já está abrindo espaço para a internet via satélite nas Unidades Básicas de Saúde, sendo a melhor solução (para não dizer a única) para regiões afastadas de qualquer grande centro urbano. 

Em 2020 assistimos o país entrar definitivamente na telemedicina aplicada, seja com aplicações de Telehealth (teleconsulta, teletorientação, telemonitoramento, etc.) ou com a utilização de devices portáteis satellite-driven. Todavia, não poucos legisladores, reguladores ou mesmo lideranças médico-associativas já se deram conta de que a ‘remotelização’ causará um enorme solavanco disruptivo nos serviços médicos, capaz de reinventar ou dizimar setores inteiros da plutocracia assistencial. Muitos deles já “alertam” de que tudo “voltará ao normal” depois da pandemia, abortando a continuidade das conquistas da teleconsulta e de outros serviços remoto-digitais. O ‘gênio saiu da lâmpada’ e consagrou o desejo de inúmeras lideranças médicas progressistas, fazendo multiplicar a república dos Teledoctors. Estes, legítimos herdeiros da era-clínico-sideral, não deixarão que o gênio volte a lâmpada desconsiderando os últimos 90 dias de telemedicina aplicada a Covid-19. 


Guilherme S. Hummel
Coordenador Científico - HIMSS@Hospitalar Forum 
EMI - Head Mentor

 

 

 

 

 

 

 

 

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