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Digital Mental-Health Services (DMHS) reduz a depressão pandêmica

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Suporte terapêutico à distância pode minimizar a ‘coronofobia’

“O impacto da pandemia na saúde mental provavelmente durará muito mais do que o impacto na saúde física”. Esse alerta foi publicado em maio último no British Medical Journal por um importante grupo de especialistas em saúde pública. Já Steven Taylor, professor de psiquiatria da University of British Columbia e autor de “The Psychology of Pandemics”, argumenta que “para uma infeliz minoria de pessoas, talvez 10 a 15%, a vida não vai voltar ao normal devido ao impacto da pandemia em seu bem-estar mental”.  Taylor explica também que “pessoas com predisposição genética para algumas formas de TOC (obsessões por contaminação, compulsão de limpeza, etc.) o estresse da Covid-19 pode desencadear ou piorar o TOC”. Não menos importante foi o alerta do Black Dog Institute, uma das mais importantes organizações de pesquisas em saúde mental da Austrália: “uma minoria significativa será afetada por longo prazo pela ansiedade pandêmica”. Todos os estudos recentes sobre a perturbação do surto em nossa vida cognitiva ou emocional são claros em ressaltar a enxurrada de problemas que podemos encontrar à frente. Talvez o passado possa explicar o presente: o surto global de SARS em 2003 foi associado a um aumento de 30% nos suicídios de pessoas com mais de 65 anos.

Globalmente, os transtornos de humor e ansiedade afetam mais de 700 milhões de pessoas a cada ano e estão associados a uma carga considerável de incapacidades. Durante a Covid-19, esse número pode ser triplicado. Estudos mostram que num período-padrão de 12 meses, menos da metade das pessoas afetadas procuram ou recebem ‘tratamentos baseados em evidências’. As razões vão desde o custo, passando pela pouca disponibilidade de serviços, pela consciência limitada da doença ou do tratamento, sem esquecer os estigmas, a preferência pelo autogerenciamento, etc. Quando a Covid-19 começou a se espalhar, medidas de prevenção exigiram o ‘distanciamento social’ e com ele veio uma enorme quantidade de malefícios, mas também de benefícios, como o crescimento dos serviços em formato digital. Nessa direção, vários países e instituições, assim como empresas, aceleraram as ofertas de Digital Mental-Health Services (DMHS), que são os serviços à distância de avaliação, tratamento, provimento de tutoriais de autocuidado e uma série de outros benefícios orientados a saúde mental. Os DHMS podem ter várias nomenclaturas diferentes dependendo do seu alcance, propósito ou da área médico-terapêutica que os utiliza (teletherapy, online therapy, virtual therapy, telepsiquiatria, telepsicologia, etc.). Estudo da OMS mostra que, em média, os países mais pobres têm ‘2 profissionais de saúde mental (SM) para cada 100 mil indivíduos’, quando nos países ricos a média é superior a ‘50 profissionais de SM para cada 100 mil pessoas’. Assim, é fácil explicar por que as soluções DHMS vem crescendo aceleradamente nos países emergentes e nos mais pobres, que utilizam plataformas de Telemedicina para prover suporte online a pacientes carentes de cuidados mentais. É provável que enquanto você lê este texto alguns milhões de indivíduos estejam nas telas digitais buscando orientação e conforto com profissionais especializados em saúde mental. Uma das nações mais avançadas nesse ambiente digital de ‘proteção a coronofobia’ é a Austrália.

A Southern Cross University, da Austrália, publicou em julho de 2020 uma pesquisa sobre as experiências e percepções dos pacientes com a Teleterapia, com 98% dos entrevistados revelando que a Covid-19 impactou significativamente seus cuidados de saúde mental. Desses, 66% disseram que haviam usado a terapia virtual, com mais de 57% desejando continuar nesse formato mesmo depois que as restrições pandêmicas cederem (uma porcentagem ainda maior revelou que recomendaria a prática para outra pessoa). Vários países fazem uso intenso dos DMHS (incluindo o Brasil), mas a Austrália talvez seja o país mais profícuo e experiente nesse segmento. Um importante trabalho publicado na The Lancet em novembro de 2020 (“User characteristics and outcomes from a national digital mental health service: an observational study of registrants of the Australian MindSpot Clinic”) mostrou o resultado dos primeiros 7 anos de um dos mais antigos e respeitados DMHS do mundo: o Australian MindSpot Clinic, um serviço financiado pelo governo federal que fornece remotamente avaliação psicológica e tratamentos para australianos com problemas de saúde mental. O estudo envolveu mais de 120 mil usuários do DMHS nacional, que representa uma ampla seção transversal da população australiana. Segundo o trabalho, até 12 de junho de 2020 a maioria dos mais de 250 relatórios publicados sobre “tratamentos psicológicos estruturados fornecidos pela Internet, principalmente para ansiedade, depressão e transtornos somáticos” mostraram reduções grandes e clinicamente significativas nos sintomas-alvo. Quanto aos resultados dos tratamentos virtuais, “a magnitude geral das melhorias clínicas obtidas nos cursos e tratamentos do MindSpot permanece consistentemente alta, com mais de 50% de redução nos sintomas de ansiedade e depressão após o tratamento (mantido por até 3 meses)”, explica o relatório da Lancet. O resultado baseado em evidências confirmou a eficácia e eficiência do MindSpot em fornecer avaliação e tratamento online. Seu site perfila duas mensagens centrais: (1) “Permaneça resiliente durante a Covid-19”; e (2) “Compreendemos que navegar por esses tempos incertos pode ser difícil e angustiante. Nós estamos aqui para ajudar”.

Os DMHS são agora atendimentos de rotina em vários outros países, como Canadá, Dinamarca, Holanda, Noruega, Suécia, EUA, entre outros. Mas é nos países emergentes, como o Brasil, que os serviços digitais voltados a Saúde Mental crescem sobremaneira. Centenas de novas empresas e milhares dos mais de 300 mil psicólogos e quase 11 mil psiquiatras nacionais passaram a atender de forma virtual. Embora ainda estejam em sua fase embrionária no Brasil e na América Latina, os DMHS estão cada vez mais associados a padrões de governança clínica e organizacional, com plataformas mais funcionais e robustas para o atendimento e suporte terapêutico. Os sistemas remotos de suporte mental devem crescer ainda mais depois que a OMS divulgou um estudo em 5 de outubro mostrando que ‘93% dos países do mundo interromperam seus serviços de saúde mental’ (presencial) durante a pandemia de Covid-19, incluindo o Brasil. Segundo a entidade, a pandemia multiplicou as demandas nesse campo, principalmente porque os transtornos mentais impactam negativamente as Economias (antes da covid-19, a perda de produtividade por depressão e ansiedade entre os trabalhadores era estimada anualmente em US$ 1 trilhão). Na pesquisa, a OMS lembrou que a saúde mental é a área que menos recebe recursos dos orçamentos da saúde, com uma média inferior a 2%, apesar de as necessidades só aumentarem. Os serviços digitais orientados a saúde mental estão no campo do atendimento direct-to-consumer, e nesse sentido, precisam seguir regras bioéticas, regulatórias, legais e sistêmicas que possibilitem o controle e a qualidade do serviço. Ainda que a pandemia tenha colocado um “macaquinho na sala de cristais”, fazendo com que seja difícil controlar, regular, vigiar e ao mesmo atender a uma colossal demanda de atendimento terapêutico-mental, esse controle deverá ser cada vez mais intensificado, principalmente dentro do escopo da LGPD (lei geral de proteção de dados pessoais).

A pandemia readaptou nossa rotina, remodelou nossas necessidades, trouxe angústia, medo e tristeza pela falta da convivência social e pelo temor ao vírus. Embora pareça tolo lembrar, é sempre interessante ressaltar que ‘não há vacina para os impactos mentais da Covid-19’, como também não existem curas milagrosas, fórmulas herbais miraculosas, ou medicamentos sem colateralidades. Psicoterapia à distância pode aliviar tensões, contornar abismos e até proteger as gerações futuras das franjas pandêmicas. O criador da psicanálise, Freud (que também utilizou a ‘remotalidade’, trocando cartas constantemente com seus pacientes), inseriu o termo “trauma” no vocabulário psíquico para explicar uma situação com a qual ainda não estamos preparados para lidar. Um evento traumático é um ‘momento inaugural’, algo que nunca tínhamos passado antes, com um superlativo ‘tranco’ em nossos conteúdos mentais. Ao nosso lado, nos fazendo companhia, criando alento quando tudo parece pequeno e menor, está a Ciência. Se ela nos permite a remotelização e seus instrumentos de comunicação ubíqua, não podemos deixar de tentar usar os DMHS para mitigar nossas angústias e agonias pandêmicas. O próprio Freud explicou: “Qualquer coisa que encoraje o crescimento de laços emocionais tem que servir contra os traumas. A serenidade é um problema individual, e nesse caso nenhum conselho é válido. Cada um deve procurá-la por si só”.

 

Guilherme S. Hummel

Coordenador Científico - HIMSS@Hospitalar Forum

eHealth Mentor Institute (EMI) - Head Mentor

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