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Femtechs seduzem os investimentos de risco

As tecnologias femininas entrando para a história

Com 1 milhão de usuários e 1,6 milhão de downloads, uma única femtech espanhola, a Woom, ajudou mais de 60 mil mulheres a engravidar, sendo que só na Espanha 5% daquelas em trabalho de parto utilizaram o aplicativo. Um dos mercados digitais mais atrativos deste século envolve a preservação do bem-estar e a prevenção de doenças da população feminina. A tecnologia feminina (femtech) é uma cosmologia recém chegada ao setor de digital health, aspirando não apenas atender aos caprichos femininos, mas também empoderar o controle sobre seus corpos. É fácil descobrir a motivação para a rápida expansão das femtechs: quase 50% da população mundial é de mulheres, um público-alvo mal atendido e preterido na balança dos investimentos de Venture Capital desde os seus primórdios (a contribuição econômica das mulheres em 2020 já ultrapassa o PIB combinado da China e dos Estados Unidos). Trata-se de um mercado que deve alcançar US$ 50 bilhões até 2025, já contando com mais de 3 mil aplicativos e devices que apoiam a saúde feminina. O Babymigo ativa informações da gravidez através de mensagens; o Bloomer Tech é um sutiã-conectado que afere os sinais vitais da usuária; o Elektra Health e o Olivia são aplicativos voltados à gestão da menopausa; o Eli Health ajuda a controlar ciclo hormonal; o Femcy, o Fizimed e o Hela Health são plataformas de orientação clínica centradas no controle sanitário feminino, e por aí vai...

O mercado de startups Femtech invade o ciclo de vida feminino, entrando pela saúde reprodutiva, passando pela fertilidade, gravidez, saúde uterina e pélvica, menopausa e dezenas de outras disciplinas clínicas que incluem desde o embelezamento até a sua ancianidade. Nos últimos cinco anos, o setor de digital health innovation abraçou as femtechs, levantando só em 2019 investimentos de US$ 490 milhões, quando de 2009 até 2018 não chegou a US$ 254 milhões. Se o montante parece tímido, pense no que vem pela frente: cerca de 1,1 bilhão de mulheres em todo o mundo estarão na pós-menopausa até 2025 (North American Menopause Society), sendo que muitas atingem a menopausa entre 40 e 58 anos, faixa etária em que grande parte delas está no auge de suas carreiras profissionais. Mais do que isso: de acordo com pesquisa recente da AARP (American Association of Retired Persons) perto de 93% das mulheres na menopausa dizem estar interessadas em soluções não-invasivas de tecnologia, incluindo aplicativos e devices que apoiem a gestão de seus sintomas. Assim, femtech não é nicho e nem fragmento de mercado, mas uma descomunal área de consumo que sempre foi preterida pelo ‘mentech establishment’.

Ida Tin é uma pioneira nesse segmento, sendo conhecida por cunhar a expressão ‘femtech’ nas hostes de Venture Capital. Fundadora do aplicativo Clue, que rastreia o período menstrual, Tin entrou no jogo da inovação quando começou a tomar pílula e pensou o quão longe a tecnologia havia avançado desde a década de 1960, mas o quão pouco fazia pelo ‘código feminino’. "Imagine que passamos um enorme tempo de nossas vidas pensando e tentando descobrir como ter ou não filhos, ou quando tê-los. Ainda assim, existem poucas opções tecnológicas para nos ajudar", disse ela, carregada de razão. Até 2018, a Saúde da Mulher representava apenas 4% do financiamento total de P&D em produtos e serviços de saúde (só a pesquisa voltada ao câncer de próstata representa 2% do financiamento total). O Sistema de Saúde Suplementar nacional, por exemplo, possui algum portfólio para saúde da mulher, mas quase sempre desconsidera as preocupações colossais de acessibilidade e os seus paradigmas socioculturais, provendo, em geral, baixo nível de personalização no atendimento à beneficiários do sexo feminino. Até o final do século XX, os cuidados com a saúde da mulher estavam centrados na atenção maternal, pediatria e planejamento familiar. Não obstante, dados dos EUA já mostravam que: uma artrite ou os distúrbios musculoesqueléticos ocorrem 1,5 vezes mais nas mulheres do que nos homens; as doenças autoimunes tem frequência 3 vezes maior em mulheres; a depressão e ansiedade minam as mulheres 2 vezes mais do que os homens; sem falar no mal de Alzheimer que incide 1,5 vezes mais nas mulheres. Uma conta-custeio que corrói os Sistemas de Saúde com pouca atenção em reduzir a dicotomia terapêutica entre homens e mulheres. 

A expressão femtech entrou no léxico do mercado com distorções, dúvidas e até questionamentos políticos. Em tese, não se trata de um movimento libertador, ou uma guarita onde só mulheres são as ownerships do setor, ou mesmo uma dialética que almeje acima de tudo a proteção dos direitos femininos. Embora todos esses enlaces sejam legítimos e façam parte do debate, o alvo-femtech é bem mais simples: trata-se do universo de tecnologias digitais relacionadas à saúde é ao bem-estar da mulher, com foco nas características e demandas do seu corpo. Abrange uma centena de vetores clínicos, como também aqueles que consideram a conveniência & conforto das mulheres. 

“O corpo é o modo de ser humano, e o mundo é o prolongamento do nosso corpo”, descreveu o filosofo francês Maurice Merleau-Ponty, que foi mais longe: a mulher no climatério, por exemplo, percebe-se exteriormente e identifica a conexão de seu corpo com o mundo, adquirindo aos poucos a consciência de seu novo corpo mediante percepções e experiências. Estas, por sua vez, geram conhecimento e a capacidade de estabelecer prioridades para assumir novos modelos de vida. As mulheres em geral fazem toda essa jornada sozinhas, inseguras, com pouco acompanhamento escolástico e quase nenhum apoio tecnológico. Somente nos últimos 50 anos o corpo feminino deixou de ser um ‘objeto’ para se tornar um agente biológico que percebe, se movimenta e transforma o ambiente. No Reino Unido, por exemplo, apenas 2% da pesquisa com dinheiro público é dedicada exclusivamente à saúde reprodutiva, apesar das estatísticas mostrarem que quase um terço das mulheres britânicas sofrem problemas reprodutivos ou ginecológicos (nos últimos anos, a pesquisa realizou cinco vezes mais estudos sobre a disfunção erétil, que afeta 19% dos homens, do que estudos sobre a síndrome pré-menstrual, que afeta 90% das mulheres). 

Mas o Século XXI tem sido bem mais generoso, avançando sobremaneira nas últimas duas décadas no apoio ao ciclo orgânico feminino. Até pelos investimentos crescentes nas femtechs, uma ferramenta como a Inteligência Artificial, por exemplo, tem transformado freneticamente as soluções digitais de apoio a ambiência feminina. Mesmo na maré baixa da covid-19, que enxugou os investimentos em Venture Capital e Private Equity, o capital não deixou de perceber a atratividade das femtechs. Peanut, um aplicativo que começou como ferramenta para encontrar novas amigas, evoluindo para uma rede social com 1,6 milhão de mulheres discutindo gravidez, maternidade, menopausa, etc., recebeu em maio último investimentos de US$ 12 milhões. O Tia, um integrator-app de cuidados femininos, levantou também em maio de 2020 perto de US$ 24,3 milhões. O bracelete Grace, um wearable de rastreamento e resfriamento automático (primeiro no mundo), que detecta as ondas de calor da perimenopausa antes que elas surjam, vem recebendo sucessivas ‘ondas’ de investimento, sendo a última também em maio. A britânica Elvie, uma smart pelvic-floor trainer levantou US$ 42 milhões em 2019, e a startup Progyny, primeira empresa de fertility benefits a abrir seu capital, amealhou US$ 130 milhões também em 2019. Sem falar na minúscula Nurx (plataforma de controle da natalidade) que recebeu desde 2016 mais de US$ 93,4 milhões. 

Conclusão: mais de duas centenas de femtechs dentro do G20 receberam fundos nos últimos 18 meses, consagrando definitivamente o mercado feminino de wellness. Não se trata, portanto, de modismo, escapismo, ou mesmo de uma ‘bolha’ circunstancial, as femtechs já são hoje uma das mais atrativas verticais no seletivo mercado de funding. A moradora mais ilustre do Quartier Latin parisiense, Simone de Beauvoir, autora de “O Segundo Sexo”, uma das mais definitivas obras sobre a relação da mulher com o seu corpo, patenteou há décadas: “enquanto o homem percebe seu corpo como uma relação direta e normal com o mundo, a mulher tem ovários”. Computador não tem sexo, mas as femtechs tem ‘ovários’ e vão ajudar a ressignificar a Saúde da Mulher nas páginas da história contemporânea. 


 

Guilherme S. Hummel
Coordenador Científico - HIMSS@Hospitalar Forum 
EMI - Head Mentor

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