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Informamos o desaparecimento em 2020 do mundo analógico

Telehealth - O avanço digital na Saúde

‘Agradecemos a todos aqueles que por tanto tempo lutaram pela preservação do mundo analógico, mas depois de milênios abraçando os valores civilizatórios ele não suportou as pressões virais e veio a desaparecer em um hospital de campanha. Seu filho mais ilustre, o mundo digital, informa não estar preparado para a responsabilidade de liderar o planeta, mas dará o melhor de si e não medirá esforços para enfrentar os desafios de uma sociedade pós-covid’. 

A literalidade acima não é oficial, mas é oficiosa. O melhor exemplo da força do mundo digital é a sua capacidade de integrar, harmonizar e apoiar a iniciativa de manter 1/3 da população do planeta em suas casas, numa ação ecumênica realizada em menos de 30 dias. Andrew Keen, jornalista, pensador da revolução digital e autor de “How to Fix the Future”, foi imperativo na última semana de março: “O mundo físico analógico está sendo dizimado, com negócios tradicionais, como hotéis, restaurantes e aviação civil enfrentando uma brutal crise de valor. O mundo digital, no entanto, prospera e estamos sobrevivendo a essa pandemia por causa da tecnologia”. Bilhões de pessoas estão sentadas em suas casas passando a olhar o mundo pela tela de smartphones, tablets ou desktops. Vamos substituir os riscos e flagelos do mundo analógico pelas armadilhas do bioma digital, com seus phishings e cyber crimes, sem falar no dilema de estarmos dia a dia mais expostos a vigilância do Estado. Mas está claro que sobreviveremos, sendo provável que nosso futuro seja até mais solidário e civilizatório. 

O novo modelo de “atitude social”, onde o distanciamento está sendo treinado a exaustão, exigirá uma mudança de hábitos e comportamentos. A nova economia e os novos modelos de cooperação multilateral à distância farão com que muitas das transformações pandêmico-cotidianas venham para ficar. Pete Lunn, diretor da Behavioural Research Unit at the Economic and Social Research Institute, em Dublin, explica como hábitos, comportamentos e culturas não são tão difíceis de mudar no mundo digital: “Muita coisa de nossas vidas são habituais, e os hábitos são altamente eficazes para nos ajudar a trabalhar, cuidar de nossas famílias e perseguir nossos objetivos. O choque que o sistema faz é mudar esses hábitos. As pessoas passam a trabalhar e viajar de maneira diferente, incluindo como se alimentam e como se comunicam. E quando você é forçado a fazer as coisas de maneira diferente, novos hábitos começam a se formar. Isso não precisa levar muito tempo - pode demorar apenas algumas semanas ou meses”. Lunn vai mais longe, desencorajando os pessimistas: “Sabemos que as sociedades que passam pela guerra geram laços mais fortes. Essa pandemia está longe de ser uma guerra, mas exige que todos remem no mesmo barco digital. E quando as pessoas percebem o que a ação coletiva pode alcançar elas mudam a forma como se relacionam, resultando um maior senso de comunidade”.

No bioma da saúde, dentro da biosfera digital, destaca-se com enorme velocidade os serviços de TeleHealth: um neologismo resultante da constelação de inúmeros vetores virtuais, que nunca mais abandonarão os Sistemas de Saúde. Telemonitoramento, Teleconsulta, Teleorientação, Telediagnóstico, Teledermatologia, Teleterapia, etc., compõe o vasto arsenal da Telemedicina Aplicada, também conhecida como TeleHealth (veja exemplos no videoclip). A mesma ambiência tecnológica capaz de escorar 2,6 bilhões de reclusos sem qualquer uso de força explicita, é capaz de remotelizar o atendimento médico e impregnar os lares de utilitarismo digital. O número de visitas médicas virtuais nos EUA deve exceder a 1 bilhão em 2020, de acordo com relatório da Forrester. Só os cuidados não relacionados ao Covid-19 devem gerar este ano mais de 200 milhões de visitas virtuais, sendo que as teleconsultas orientadas a saúde mental superarão sozinhas 80 milhões de sessões. A Kaiser Permanente, uma das 5 maiores seguradoras norte-americanas, atende hoje uma média de 65 mil teleconsultas diárias, fazendo com que seus 12,2 milhões de prontuários eletrônicos gerem uma massa de dados de alta relevância epidemiológica. Nesse sentido, quintuplicam as aplicações de TeleHealth amparadas por Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquina. 

Em março, foi lançado na Austrália o National TeleHealth Program, um mega acontecimento para uma nação que já utiliza as aplicações de telehealth em abundância. A diferença é que o lançamento foi cercado de pompa e medo pandêmico. O ministro da saúde Greg Hunt exemplificou o esforço como "uma década de trabalho em alguns dias". Os últimos analógicos resistentes foram varridos em poucas semanas da Austrália pela emergência do coronavírus. No centro do programa está a atenção primária, que recebe agora uma pujante Plataforma de TeleHealth com suporte direto aos algoritmos epidemiológicos. Quatro semanas após entrar em operação o programa já havia realizado mais de 2,5 milhões de teleconsultas. Assim como no Brasil, em poucas semanas o parlamento australiano passou a votar de forma remota, e os juízes que haviam encontrado todo o tipo de razão para não aceitar audiências em vídeo, ligaram as câmeras e passaram a despachar virtualmente. O isolamento da Covid-19 empurrou os tecnofóbicos para fora da sala de jantar, com eDoctors e Teledoctors sendo valorizados como nunca no ecossistema sanitário.

A ferocidade digital de março fez o serviço de streaming propelir. O aplicativo de videoconferência Webex, da Cisco, registrou um recorde de 324 milhões de participantes em março, crescendo 2,5 vezes nas Américas, 4 vezes na Europa e 3,5 vezes na Ásia-Pacífico. Certamente que o home-office influi nessa ascensão, mas os serviços de Telehealth também puxam a demanda rapidamente. O Dr. Eric Topol, diretor do Scripps Research Translational Institute, na California, sendo uma referência mundial em digital health, explicou o caminho sem volta dos encontros clínicos virtuais: "As práticas sociais e médicas que estão ocorrendo em resposta à Covid-19 permanecerão globalmente em vigor quando a crise acabar. Isso certamente se aplicará a todas as consultas eletivas, rotineiras e ambulatoriais. E para qualquer doença infecciosa, incluindo a gripe sazonal, as clínicas não vão querer mais correr o risco de expor os pacientes (e seus familiares) enquanto estão sentados nas salas de espera, nem o risco de infectar seus profissionais de saúde. A telemedicina desempenhará o papel na primeira consulta semelhante a ligação-telefônica caseira de outrora”. No Reino Unido, os médicos de família viram suas rotinas de trabalho serem radicalmente alteradas pela pandemia. Grande parte está recorrendo aos serviços de consulta on-line, como AccuRx e eConsult, para cuidar dos pacientes que estão reclusos em casa. Só a plataforma AccuRx já faz 35 mil videoconsultas por dia, turbinando o consenso britânico de que o modelo de atenção primária deverá ser radicalmente diferente depois do surto epidêmico, enfatizando nele a remotelização maciça dos atendimentos. 

A telemedicina já existe na Europa há anos com plataformas como a Babylon (UK), Ada (Alemanha) e Kry (Suécia) que fornecem serviços de telehealth em todo o continente. Nas últimas semanas, essas empresas lançaram novos recursos focados no coronavírus objetivando reduzir a carga sobre os médicos. A Dra. Clare Gerada, que já presidiu o Royal College of General Practitioners e hoje é diretora e cofundadora do Hurley Group, explicou a rede CNBC que está presenciando uma mudança significativa na maneira como trabalha. Gerada explicou que agora só “muito ocasionalmente vê seus pacientes frente a frente”. Sua vida profissional se transformou dramaticamente: “Cerca de 99% de nosso atendimento agora é digital ou feito remotamente por telefone, o que ainda é um pouco estranho. O uso da plataforma eConsult, por exemplo, explodiu em todo o Reino Unido, realizando mais de 3 mil sessões de telehealth por hora, quando antes não passava de 300 por mês. Isso sinaliza para uma colossal transformação em nosso método de trabalho”, completou Gerada. Um exemplo dessa transição foi um meme que circulou na comunidade britânica: “I don't wear mask, but notebooks”. 

À medida que a Economia global está proibida de colocar o nariz fora de casa, as garantias digitais foram acionadas para manter a sociedade em razoável funcionamento. A emergência do vírus desafia todos os setores tradicionais a repensarem sua obsolescência, com os analógicos reticentes buscando algum oxigênio digital para reinventar suas empresas. Os sistemas educacionais estão prestes a implantar novos e ousados modelos de aprendizado à distância. O tradicional setor bancário multiplicou sua preocupação com o crescimento das fintechs: somente na Índia, mais de 50% da população já utiliza serviços de uma fintech e não de um incumbent-bank (o Brasil é o país com o maior número de fintechs da América Latina, com mais de 604 startups financeiras em operação). O setor varejista foi alvejado sem misericórdia pelo vírus, passando da bonanza à UTI em poucas semanas. Sua organização está sendo redesenhada rapidamente para multiplicar a deliverization em detrimento do face-to-face-service. Sem falar nas milhares de agências governamentais que passaram a mudar suas prioridades digitais. Vin Gupta, professor na University of Washington School of Medicine, em Seattle, explica a mudança de prioridades: “Não enfrentamos uma emergência de saúde pública dessa escala há um século. Isso está causando um enorme impacto psicológico na população mundial, e é provável que haja apelos à ação. Pessoas usarão o Covid-19 como uma forte justificativa para exigir assistência médica universal. Haverá também apelos para elevar a segurança da saúde ao mesmo nível prioritário de outras ameaças, como desarmamento nuclear e terrorismo”. 

Jonathan Freedland, colunista do Guardian e da BBC resgatou uma expressão de Lenin para retratar com assertividade os primeiros 100 dias da pandemia: “Há décadas em que nada acontece; e há semanas em que décadas acontecem”. Nada mais exato. Um fenômeno não deixa de ser notado: apesar do medo, da solidão, da claustrofobia, das insuficiências hospitalares e das dificuldades econômicas, poucos diriam que a humanidade entrou em desespero ou desgoverno. É cedo para entendermos as causas dessa consistência, mas na Saúde, em tempos de distanciamento social, está claro que as ferramentas de Telehealth estão nuclearizando a proximidade digital no front pandêmico. A Covid-19 mudou a pergunta: o invés de “Por que você gostaria de fazer isso online?”, o questionamento passou a ser “Por que você gostaria de fazer isso de forma presencial?” 

 

Guilherme S. Hummel
Coordenador Científico - HIMSS@Hospitalar Forum 
EMI - Head Mentor

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