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Redes Sociais - Arrependimento por não ter aproveitado a vida?

Menos nostalgia é receita para ser digital

Depois de iniciada a pandemia o consumo de Internet aumentou 70%, sendo que só a navegação nas mídias sociais cresceu 61%. Os dados são da consultoria Kantar, divulgados em 03/04. O WhatsApp teve um aumento de 40% de uso, com 27% de crescimento na fase inicial da epidemia, 41% na fase intermediária e 51% nos países que chegaram na chamada “fase final”. Só a Espanha registrou um aumento de 76% de tempo gasto no WhatsApp. A China experimentou um aumento de 58% no uso de aplicativos de mídia social locais, incluindo Wechat e Weibo. Mais do que nunca passamos a ser um animal digital conectado a inúmeras malhas sociais.  

Um dos temas mais frequentes nas mídias sociais é a nostalgia. Muitos indivíduos confinados, preocupados com as finanças, com o emprego, com a saúde dos filhos ou pais, com medo de sair para buscar alimentos, com pavor de alguém tossir ao seu lado e por todas as misérias que rapidamente se acumulam ao seu redor passaram a tangenciar a depressão, o stress e outros problemas comportamentais. Krystine Batcho, PhD, professora de psicologia na LeMoyne College, especialista em redes sociais e autora do estudo Nostalgia Inventory, explica: “A palavra nostalgia foi inventada há mais de 300 anos, sendo originalmente designada como ‘saudade de casa’. A derivada semântica ao longo dos séculos ampliou isso para uma noção de ‘aspectos do passado das pessoas’. A maioria das pesquisas disponíveis hoje, incluindo a minha, argumenta que a nostalgia tem várias funções. O consenso dos estudos está na ideia de que a nostalgia ajuda a unir nosso senso de quem somos, nosso eu e nossa identidade ao longo do tempo. A nostalgia motiva-nos a lembrar o passado de nossa vida, relembrando quem somos quando comparado a quem éramos, ou quem gostaríamos de ser”. Ainda segundo a pesquisadora, a amargura vem do senso de que sabemos com certeza que nunca poderemos recuperar os grandes momentos, concluindo que essas fases se foram para sempre. “Sabemos que é estressante. É muito difícil compreender a mudança, porque, em certo sentido, no nível psíquico, ela nos ameaça. É um pouco assustador, porque não temos 100% de certeza de que podemos controlá-la. Um dos aspectos mais importantes para parecer um ser humano saudável é ter a sensação de que você está no controle das coisas. Assim, se por algum motivo, as pessoas estão descontentes com a forma como as coisas estão hoje, é mais provável que experimentem um sentimento nostálgico de que as coisas deveriam ter sido melhores no passado”, completa Batcho. Nesse sentido, passa a ser de vital importância separar o que são memórias e recordações do que é apenas uma nostalgia pessoal

O sentimento coligado a nostalgia pode ser o arrependimento. Em cenários pandêmicos, o arrependimento e a nostalgia poluem as redes sociais. Um átomo de tristeza nostálgica pode desencadear uma cascata de arrependimentos em série, muitas vezes explícitos ou, em geral, dissimulados. Aquela viagem tão planejada que não aconteceu, aquele filho que não veio, aquele casamento que arruinou a família, aquela sopa de aspargos que esqueci a receita, aquele inverno em Paris, aquele vinho que nunca abri e azedou... Muitas vezes as redes sociais atuam como pícaros, drenando nossas vidas e nossos sentimentos do passado. Somos capazes de passar horas navegando nas redes sem necessariamente realizar algo produtivo, e, muitas vezes, nos enveredamos pelos labirintos da nostalgia, do arrependimento e da depressão. As mídias sociais podem ser binárias: de um lado temos a riqueza de informações processadas diariamente, algo que pode ser muito produtivo, enriquecedor e que ajuda no crescimento individual; mas, do outro lado, podem gerar uma infecção bem pior do que a Covid-19. Nada de novo nessa constatação, apenas a certeza de que esse fenômeno pode acontecer sem percebermos. 

No claustro da pandemia, todos os indivíduos são ilhas. Todos passamos a ser relevantes ilhotas cercadas de medo por todos os lados. Sozinhos ou acompanhados, todos gostam de desenhar na mente um passado de histórias reais ou inventadas, com muitos sonhando ou se arrependendo de não terem aproveitado a vida como gostariam. Os mais velhos passeiam por distantes tempos, onde podem encontrar prazer ou um filme B. Os mais novos desfilam seus sonhos futuros por ambientes paradisíacos que ainda querem conhecer. A questão central é: temos que apreender a aproveitar a vida ainda que fechados num compartimento residencial e cercados por insumos digitais. Se não o fizermos, se as redes sociais não forem aproveitadas para esse fim, se a experiencia digital não nos engrandecer, se perseverarmos em inúteis nostalgias poderemos estar condenados a permanecer aprisionados mesmo depois de finalizado o isolamento. 

O filosofo Michel de Montaigne (1533-1592), se autoimpôs o período de uma década de confinamento. Em seu castelo no interior de Bordeaux, escreveu o ensaio "Of Experience", sua última e celebre obra. “É preciso gerenciamento para aproveitar a vida. Aprecio-a em dobro do que os outros, pois a medida do prazer depende de uma atenção maior ou menor que prestamos. Especialmente neste momento da vida, quando percebo que o meu tempo é tão breve, tento aumentá-lo em peso. Tento deter a velocidade de seu voo pela velocidade com que o agarro, compensando a pressa de seu refluxo com o meu vigor em usá-lo. Quanto menor minha posse da vida, mais profunda e completa devo fazê-la”, escreveu ele. O isolamento social, mais do que uma imperativa iniciativa para conter o vírus, pode ser um novo e espetacular tempo de vida. Estamos “condenados” a um exercício induzido de introspecção, cercados por meios digitais e medo. Quase 60% do planeta navega pelas Redes Sociais nos dias de hoje. Saber aproveitá-las é saber ser digital sem deixar de ser pródigo, generoso e fecundo. 

Guilherme S. Hummel
Coordenador Científico - HIMSS@Hospitalar Forum 
EMI - Head Mentor

 

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