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Quando o atendimento emergencial vem do céu

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Drones salvando e paramédicos voando

Os serviços de ambulâncias passam por transformações no mundo todo, sendo que a Covid-19 (como sempre) acelera as mudanças. Criadas no século XV, as ambulâncias cresceram de importância na proporção em que cresceram as grandes guerras. O cuidado e a remoção de pacientes para hospitais deixaram de ser somente uma operação logística para ser cada vez mais um healthcare-continuum, com as tecnologias digitais produzindo real valor. Todavia, a ‘velocidade assistencial’ ainda é um dos grandes desafios. Por maior que seja a quantidade de tecnologia embarcada nas ambulâncias ela atua pouco na demora do veículo em chegar ao pronto-socorro hospitalar. O tráfego intenso, as aglomerações em eventos públicos, os acessos alternativos distantes, etc. são elementos cada vez mais complexos nos centros urbanos. Em Ontário (Canadá), por exemplo, a taxa média de mortalidade em AVC no serviço de ambulâncias permanece inalterada a quase uma década (por volta de 13%). Se os procedimentos clínicos móveis são cada vez mais potentes, as dificuldades de deslocamento até o hospital também são cada vez maiores nos dias atuais.

O conceito de ‘ambulância voadora’ ganhou consistência em 2018 quando as plataformas aéreas autônomas, também conhecidas como eVTOL (veículo voador elétrico para uso urbano), passaram a ser mais do que uma ideia lunática. Veículos aéreos urbanos saíram das pranchetas e se tornaram uma resposta rápida nas emergências médicas. O Ambular, por exemplo, atua como flying ambulance: o serviço é solicitado ao paramédico mais próximo, que utiliza o veículo-aéreo para se deslocar até o local do acidente. Ainda em teste, a aeronave é capaz de voar de forma autônoma usando inteligência artificial (IA) e monitoramento remoto, realizado por uma central de comando (os sistemas de IA a bordo do veículo são capazes de guiá-lo através de ambientes urbanos "difíceis"). Chegando ao local, o paramédico estabiliza o paciente e o remove ao hospital mais próximo (mais rápido do que usando veículos terrestres convencionais). Todos os principais players da indústria aeronáutica desenvolvem programas nessa direção (eVTOL), como, por exemplo, a Embraer que apresentou seu projeto no evento Uber Elevate Summit 2019 (UATM Urban Air Traffic Management - EmbraerX).

Drones que acessam locais de emergência já não são novidade, tornaram-se realidade principalmente em zonas rurais. O chamado ambulance-drone ganhou desenvolvimento a partir de 2012, tornando-se uma realidade em poucos anos e ganhando aplicações cada vez mais utilitaristas, como a entrega de órgãos humanos nos procedimentos de transplante. Dezenas de modelos em medical-drones já sobrevoam o espaço aéreo de várias cidades, sendo a ‘dronagem’ no século XXI o que foi o helicóptero no século XX.

Assim, nos serviços emergenciais o drone já é quase ‘notícia velha’. Mas quando um paramédico usando um ‘macacão de voo’ desce no meio dos acidentados, auxilia as vítimas e suporta a vida humana até a chegada da remoção, estamos diante de uma verdadeira revolução’ que só os tempos de pandemia poderiam acelerar. O Great North Air Ambulance Service (GNAAS), na Inglaterra, vai oferecer serviços aéreos em regiões de difícil acesso. Não são helicópteros ou balões, mas paramédicos vestindo macacões a jato (jet suit paramedic) sustentados por cinco turbinas com mais de 1000 cavalos de potência (podendo atingir 130 km/hora). Sim, o vídeo mostra como os testes são auspiciosos e como as equipes moveis de emergência estarão se deslocando num futuro próximo. Em parceria com a Gravity Industries (empresa que desenvolve os macacões a jato), o GNAAS está testando o serviço em regiões rochosas e acidentadas, avaliando as inúmeras aplicações médicas desse tipo de binômio médico-aerotecnologia. No experimento, alguém “atingido por um acidente” é localizado a cerca de 25 minutos de distância (deslocamento de uma caminhada acelerada até a colina). Usando o traje a jato, o paramédico alcança o paciente em menos de 2 minutos, pousa facilmente nas proximidades do ocorrido (superfície rochosa) e auxilia o acidentado. Num dos testes, realizado em setembro último, o voo durou 90 segundos, enquanto o resgate a pé exigiria uma escalada árdua por mais de 30 minutos. É impossível assistir ao vídeo e não idealizar um avanço nos serviços paramédicos emergenciais nos próximos anos, onde hoje ambulâncias trafegam por ruas lotadas “berrando” pedidos de passagem com sirenes alucinantes.

Os ‘drones aéreos’ chegaram primeiro, e nas zonas em que já contam com regulação das agencias aeronáuticas são capazes de levar, por exemplo, desfibriladores para situações emergenciais. O condado de Renfrew em Ontário, tem trabalhado nessa finalidade com algumas empresas, como a InDroRobotics, ou Cradlepoint ou a gigante Ericsson. Os ‘desfibriladores voadores’ já são usados a algum tempo, sendo mais rápidos do que despachar uma ambulância convencional. Em áreas rurais, os tempos de respostas emergenciais são excepcionalmente longos, com serviços ambulatoriais viajando por longas distâncias. O drone-emergencial pode levar algum nível assistencial em minutos, respondendo mais prontamente, por exemplo, a uma parada cardiovascular.

O macacão a jato do GNAAS é um assombro. Foi inventado por Richard Browning, um desses empreendedores resilientes que fundou em 2017 a Gravity Industries, empresa por trás da inventividade voadora do filme Iron Man (sim, quando o “homem de ferro” voa ele simplesmente segue a cartilha de Browning). Sua invenção do equipamento Daedalus Mark1 mudou o conceito de eVTOL, propiciando que jato-propulsores em miniatura alcem o ser humano a voos de baixa altitude (entrou para o Guinness Book por levar um homem a atingir a velocidade de 136,89 km/h). Ainda veremos paramédicos voando pelos céus atendendo pacientes em suas residências, ou em acidentes urbanos, ou em incêndios florestais, ou nas enchentes cada vez mais frequentes, etc. Se acha isso ficção, lembre-se que a alguns anos atrás seria cômico pensar que drones seriam usados pela maior empresa de delivery do mundo (Amazon), substituindo muitos veículos de solo. Há 3 anos, seríamos ridicularizados se ousássemos prognosticar que os médicos em pouco tempo iriam atender mais pacientes por Telemedicina do que presencialmente, ou seríamos hereges se há uma década tentássemos explicar que os gigantescos aparelhos de ressonância magnética ficariam acessíveis residencialmente através de um smartphone. Se acham tudo isso uma grande maluquice, façam como sugere o autor Roger Cohen: “Deixem seus desejos respirarem. Observem com paciência. Ouçam através dos silêncios. Olhem além da próxima esquina. Confiem no alvoroço da intuição. Escutem o murmúrio do universo. Liberem a sua imaginação. Sigam a bússola de seu coração, esse grande demolidor da sabedoria convencional, e avancem firmes rumo ao desconhecido”.

Guilherme S. Hummel
Coordenador Científico - HIMSS@Hospitalar Forum
eHealth Mentor Institute (EMI) - Head Mentor

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